POR SHEILA JACOB
Rafael Fortes, doutorando em Comunicação, estabelece a importância da mídia na valorização do esporte
Nas faculdades de Comunicação Social, é comum se discutir a colaboração da mídia para o aumento do consumo, a fabricação de necessidades, e a manutenção de preconceitos. Entretanto, esse "quarto poder" se estende muito mais, e é capaz de exercer influências em outras áreas, como, por exemplo, o esporte, transformando-o em mais um objeto de consumo. É exatamente sobre a relação entre o surfe e os meios de comunicação que se debruça o jornalista Rafael Fortes, doutorando em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Sua pesquisa, intitulada De "passatempo de vagabundos" a "esporte da juventude sadia": surfe, juventude e preconceito em Fluir (1983-1988), foi apresentada no Congresso. Com o trabalho, procurou mapear o papel da mídia na mudança do entendimento do surfe.
Rafael Fortes é formado em Jornalismo e História na UFF, e escolheu como objeto de análise a revista Fluir nos seus primeiros anos de circulação (1983 a 1988). "O interesse pelo surfe e pela sua articulação com os meios de comunicação vem há muito tempo, embora eu não seja surfista. Considero que a revista cumpriu um papel importante na 'estruturação' (pra usar uma palavra muito presente na publicação) do surfe brasileiro nos anos 1980", conta.
Fluir – Terra, Mar e Ar foi criada em 1983 por cinco amigos com a proposta de se firmar como principal revista de esportes radicais do país. Fortes explica que "para se estabilizar comercialmente e dar lucro, entretanto, era preciso que o surfe se organizasse e estruturasse profissionalmente, para que o interesse não fosse só um modismo, como aconteceu por volta de 1977, inclusive com outros esportes". Ele lembra que, na década de 1970, o surfe não era reconhecido pelo Conselho Nacional de Desportos (CND), poucos brasileiros estavam envolvidos, não existia uma associação responsável por sua organização no país, e ainda havia pouco investimento por parte das empresas.
E é nesse contexto de desvalorização que nasce a revista. Por um lado promove e apóia intercâmbios, campeonatos profissionais e amadores, faz a cobertura da participação de brasileiros em torneios no exterior, "e até mesmo co-patrocina a ida de um atleta para competição na África do Sul", comenta Fortes. A revista apresentava propostas, entrevistava surfistas, publicava resultados de campeonatos e anunciava previamente alguns deles. Mas, principalmente, preocupava-se em afirmar insistentemente a seriedade do esporte e dos envolvidos com ele. E como isso era feito? "Isso se dá tanto pela celebração de iniciativas e acontecimentos considerados positivos quanto pela denúncia e resposta àqueles enquadrados como negativos".
Por exemplo: começou a repetir constantemente que o surfe já estava sendo entendido um esporte sério, enquanto no passado, os praticantes eram considerados "criminosos ou alienados". Também chegou a assumir posturas políticas mais restritas, mesmo que poucas vezes, como apoiar a Campanha das Diretas Já. Também se preocupava em combater o estigma de drogados que acompanhava os praticantes. "Romper a associação entre surfista e maconheiro fazia parte do esforço para legitimar o esporte como algo sério e confiável, em que as empresas poderiam e deveriam investir tranqüilamente, sem temer a falta de profissionalismo", explica Fortes.
Outro problema associado aos surfistas é a violência, que realmente cresceu junto com o aumento do número de praticantes na água. O que fazer, então? "Vários editoriais clamam por uma mudança de atitude dos adeptos. Chamava-se atenção sobre campeonatos em Santa Catarina em que se destacava a presença de pais e familiares". Fortes também considera importante os personagens surfistas "com uma imagem limpa e positiva" interpretados pelos atores globais Kadu Moliterno e André de Biase.
Pela campanha da revista houve um crescimento estrondoso do surfe e do investimento, além de uma melhoria na imagem. A cobertura enfatizava os aspectos positivos, como o aumento do número de praticantes e espectadores nos campeonatos e o crescimento da venda de produtos. Assim, ao mesmo tempo em que aumentava a procura do público, mostrava aos anunciantes a existência de uma gama maior de consumidores. E hoje? "Me parece que houve sucesso na melhoria da imagem do surfe e dos surfistas. É bom destacar que esse esforço não foi só da Fluir, mas também de todos os envolvidos com o esporte, como atletas, patrocinadores, empresários, outros veículos de comunicação etc", analisa Fortes. Como resultado, a transformação de "passatempo de vagabundos" em "esporte da juventude sadia". Mais um ponto para a mídia.
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