POR ANDRÉ KANO
Debate usa cinema como tela para mostrar a cara feia do desenvolvimento brasileiro
A temática era o cinema, mas foram as questões sociais que deram o tom de um debate que reuniu estudiosos na Universidade Federal Fluminense (UFF) na manhã dessa quinta-feira, dia 16 de maio. A apresentação da professora Vera Lúcia Follain gerou, além de aplausos, discussões sobre como cineastas têm desenvolvido trabalhos que revelam as contradições de uma sociedade desigual.
Além de Follain, os doutorandos Mariana Baltar e Ivan Cappeler também participaram do debate, que foi uma das 19 atividades do Congresso.
Um dos vieses mais abordados foi o da relação entre tempo e espaço para explicar a condição social. Para Follain, a visão criada e projetada de que a modernidade e o bom estão nos centros urbanos, onde se produz a cultura, gerou a idéia de que o deslocamento no espaço também gera um deslocamento no tempo. Follain explica o conceito:
"Quando uma pessoa sai do interior e vem à cidade tentar sorte melhor, ela está fazendo um movimento no espaço. Porém, há um movimento no tempo, porque ir à cidade também significa sair de condições que se assemelham ao passado e ir de encontro à modernidade e tecnicidade que representam o futuro", afirma a debatedora.
Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, foi um dos filmes citados para exemplificar como o cinema critica essa noção apontada pela professora. O roteiro apresenta um sertão marcado por profundas injustiças sociais e personagens que se deslocam de um lugar a outro para conseguir escapar das dificuldades a que são submetidos.
Outro trabalho citado foi o do diretor Marcelo Gomes. Em Cinemas, aspirinas e urubus, um alemão, fugitivo da Segunda Guerra Mundial, vai se esconder no sertão brasileiro onde encontra um nordestino que vive em dificuldades. O filme discute justamente o contato de dois mundos separados fisicamente – o sertão do nordeste e a Europa em guerra –, como também separados no tempo, o nordeste do passado e o primeiro mundo do futuro. Embora ambos estejam percorrendo os mesmos lugares no nordeste, e ambos procurem uma vida melhor, seus caminhos são inversos. O primeiro sai do centro europeu para a periferia do nordeste brasileiro, enquanto o segundo sai do sertão para tentar a vida em direção à cidade.
Na platéia, cerca de 50 estudantes de comunicação e interessados no tema puderam fazer perguntas aos debatedores ao longo das mais de três horas de atividade.
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